quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Vinhos Tintos de Topo do Douro, by RV



Na última edição da Revista de Vinhos foi apresentada uma prova de vinhos tintos de topo do Douro, na sua maioria de 2007. Dos sessenta e nove vinhos provados, cinquenta e dois eram de 2007, dez de 2006, quatro de 2005 e três de 2004). Os preços de referência variam entre os € 8,30 e os € 79,00 e as classificações entre os 16 e os 18.5 (com sete vinhos notados com 16, treze com 16.5, vinte e dois com 17, vinte com 17.5, seis com 18 e apenas um com 18.5).

Vinhos por anos:

2007 – 52
2006 – 10
2005 – 4
2004 - 3

Vinhos por classificações:

18.5 – 1
18 – 6
17.5 – 20
17 – 22
16.5 – 13
16 - 7

Depois de ter lido as notas de prova resolvi fazer uma tabela onde listei os vinhos por grupos, consoante a classificação obtida e ordenei-os por preços.
Foi uma coisa, assim tipo DECO e que até podia ser pateta, mas que na verdade ajudou a perceber que num patamar de qualidade idêntico (decorrente do rigor e isenção das classificações dadas pelo painel de provadores da RV) aparecem propostas com preços a variar e muito (mas isto é só mesmo para dar uma ajudinha nas idas às compras).
Uma das coisas que salta imediatamente à vista é que os vinhos com pontuações mais altas (acima de 18) são todos de 2007 e mesmo no grupo dos vinte notados com 17.5, apenas aparecem dois de 2006, sendo os restantes de 2007.

Fazendo outro desdobramento, o vinho mais bem classificado (18.5) é proposto a € 30,00 e nos grupos seguintes temos valores entre:

18 – Entre os € 22,00 e os € 60,00;
17,5 – Entre os € 12,00 e os € 79,00;
17 – Entre os € 9,00 e os € 70,00;
16.5 – Entre os € 8,30 e os € 45,00;
16 – Entre os € 15.00 e os € 45,00.

Continuando a “brincar”, considerei como razoável o valor de € 30,00 para o vinho classificado com 18.5 valores e fui à procura de vinhos que fossem ficando mais baratos € 5.00 nos grupos seguintes, ou seja:

18.5 - € 30,00;
18 - até € 25,00;
17.5 - até € 20,00;
17 - até € 15,00;
16.5 - até € 10,00;
16 – Não se aplica porque único vinho abaixo dos € 10,00 teve 16.5.

Isto tudo para ver se meio ponto da RV pode valer € 5,00. Claro que isto é manipulação gratuita de números e não se pode tratar assim o vinho, como se fosse um electrodoméstico. Ainda por cima fiz isto sem pensar de que vinhos estaria eu a processar informação nem a que preço aparecem efectivamente no mercado…


Depois disto, fui ver o resultado:




Nada mau. Ainda fico com 14 rótulos dentro dos limites que estabeleci. Se os vou comprar todos? Não! Se penso em comprar outros que não cabem nesta lista? Claro…

Mas é uma bela lista, com:

18.5:
Poeira 2007, do Jorge Moreira.

18:
Quinta das Tecedeiras, Reserva 2007, da Dão Sul;
Quinta do Infantado Reserva 2007, do João Roseira;
Ázeo Reserva 2007, do João Brito e Cunha.

17.5:
Passagem Reserva 2007, da Sandra Bergqvist;
Dados Reserva 2007, da Messias;
Corpus 2007, da Gabriela Canossa;
Quanta Terra 2007, do Celso Pereira;
Tapadinha Grande Reserva 2007, de Domingos Alves de Sousa.

17:
Carm Reserva 2007, da Casa Agrícola Roboredo Madeira;
Curva 2006, da Sogevinus;
Quinta de Roriz Reserva 2004, de João van Zeller/Sandra Tavares da Silva;
Quinta da Fronteira, da Companhia das Quintas.

16.5:
Palato do Côa Reserva 2007, de Sampaio e Melo Cabral.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

A Demanda da Alheira de Caça e o Pombal do Vesúvio 2007

Mais uma proposta com alheira de caça... Estas foram compradas na Baixa do Porto, numa casa no gaveto da Fernandes Tomás com a Rua do Bonjardim. No meio de todas as alheiras que estavam em exposição, comprei umas de caça de Vinhais que tinham um aspecto óptimo. Ao contrário do que costumo fazer com as alheiras de supermercado, estas foram para uma frigideira com apenas umas gotas de azeite a lume médio e com a pele... Deixei-as fritar na pouca gordura que iam largando e não se desfizeram. Para acompanhar, em vez das batatas cozidas e salteadas e os grelos, optei por fazer um arroz de portobellos, bem malandro. Num tacho, deitei cebola picada e um pouco de azeite. Salteei a cebola e juntei um pouco de polpa de tomate e vinho branco; deixei em lume brando enquanto cortei os cogumelos em pedaços e juntei os cogumelos e arroz carolino, bem como um pouco de água a ferver (aproximadamente o triplo do arroz). Deixei cozer o arroz e servi.



Este prato foi feito a pensar no Pombal do Vesúvio, a segunda marca da Quinta do Vesúvio, da familia Symington e situada em Foz Côa. Feito com Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Amarela, é elegante, cheio de fruta e muito bem estruturado. Os 14º de álcool não incomodam nada. Proposto a cerca de 12 €, está muito bem. Nota pessoal: 16,8.

domingo, 22 de Novembro de 2009

Quinta dos Roques Touriga Nacional 2007

1 - Quinta dos Roques

2 - Touriga Nacional

3 - 2007

Esta conjugação de factores é muito séria.

Os vinhos da Quinta dos Roques (e Maias), do Luís Lourenço são dos mais respeitados e venerados do Dão.
O Encruzado consegue, ano após ano, afirmar-se como uma das referências dos brancos Portugueses. Nos tintos, o Touriga Nacional e o Reserva brilham onde quer que apareçam.
Na feira de vinhos de Nelas, comprei uma garrafa deste Touriga Nacional 2007 para cometer mais um crime de infanticídio (o vinho só devia ser aberto daqui a uns dois anos). Resolvi acompanhar com um singelo bife grelhado, batatas novas assadas com a casca e um esparregado de espinafres. Nada de especial ou muito elaborado, porque a idéia era mesmo deixar brilhar o vinho.




E se brilhou... Decantado duas horas antes, ainda estava fechado, com notas vegetais e de lagar; abriu, tímido, mostrando alguma fruta, mas sempre longe dos esperados aromas florais da Touriga Nacional (numa prova cega até passava por blend). Violáceo, pujante e arrebatador. Cheio na boca e com um belo final, longo... Para voltar a provar daqui a uns anos... Não será o melhor dos infantes de 2007, mas nem por isso deixa de ser um caso sério. Nota pessoal:17.
(PVP: cerca de € 25)

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Grão com Carne de Porco e Quinta do Carmo 2002

Esta preparação, apesar de ser feita com massa e grão não tem nada a ver com o rancho à Moda de Viseu. Ainda assim é uma forma agradável de harmonizar as partes gordas do porco com a massa e o grão num prato que, embora pesado, nesta altura do ano sabe bem. E este foi feito para provar um Quinta do Carmo de 2002.

No talho pedi para cortarem entrecosto, rabo, orelha e chispe de porco em pedaços pequenos. Deixei em sal de um dia para o outro, demolhei e cozi a carne, juntamente com chouriço de carne e morcela da Beira Baixa. Num tacho, deitei um fundo de azeite, cebola picada grosseiramente e alho esmagado e deixei a cebola ficar transparente; juntei um pouco de pimenta, polpa de tomate e malagueta. Deixei ficar um pouco em lume brando e depois juntei as carnes e grão de bico cozido; voltei a deixar mais um pouco e juntei macarronete riscado. Deixei a massa ficar al dente e servi.



"Os antigos vinhedos deram a notoriedade aos vinhos Quinta do Carmo. Desde 1992, os Domaines Barons de Rotschild (Lafite) e mais tarde o sócio Senhor Comendador José Berardo, levaram à propriedade o seu renascimento, sendo acompanhado de novas plantações e de uma adega renovada.
Plantadas em terrenos argilo-xistosos, as castas Aragonês, Alicante Bouschet, Trincadeira e Castelão, complementadas agora com Cabernet Sauvignon e Syrah no vinho da Quinta do Carmo, com renome pela sua concentração e elegância.
Os métodos de cultura e vinificação respeitam a tradição, com integração das novas tecnologias que permitem exprimir o melhor da tipicidade do Alentejo.
O vinho passa por um estágio de um ano em barricas de carvalho francês antes de ser engarrafado na Quinta."
(tirado do contra-rótulo).

Este Quinta do Carmo é um clássico do Alentejo. Este 2002 já foi provado algumas vezes e está em muito boa forma. Os seus 14º quase não se notam, a madeira está elegantemente presente; alguma fruta, taninos domados. Dá muito prazer a beber.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Ao Encontro do Entrecosto

Há algum tempo atrás, ensaiei uma harmonização de entrecosto de porco com morcelas da Beira Alta/Guarda (aqui) e agora resolvi revisitar esta preparação, com algumas variações. Desta vez fritei entrecosto de porco cortado em cubos, ligeiramente marinado em vinho branco, pimenta e alho, em banha de porco. Fritei as batatas na mesma gordura e salteei em seguida umas rodelas de Morcela da Guarda. Servi com um pouco de salsa picada.



E escolhi um vinho que à partida não será consensual, mas tal como no leitão à Bairrada, este Espumante Bruto da Quinta do Encontro, com a sua acidez e as bolhinhas veio a mostrar-se bela wine-pairing.

Sabores que os vinhos Dão

"Sabores que os vinhos Dão" é o nome de uma publicação patrocinada pela Câmara Municipal de Nelas, com coordenação do Chefe Hélio Loureiro. Apresentada aquando da realização da 18ª Feira de Vinho do Dão, que decorreu de 4 a 6 de Setembro deste ano, apresenta mais de 50 receitas da Cozinha Tradicional da Beira Alta, bem escolhidas e explicadas e uma inteligente e atenta selecção de Vinhos do Dão para as acompanhar. A edição foi de apenas 2.000 exemplares.

Do Prefácio, escrito pelo João Paulo Gouveia (Grão Mestre da Confraria dos Enófilos do Dão), pode ler-se o seguinte:

"As combinações entre comida e vinhos não são rígidas pois as regras são apenas básicas. Também a forma como se cozinham os ingredientes condicionam a escolha do vinho. O melhor para se combinar é conhecer o mais possível tanto o vinho como a comida e saber que os pratos não são estáticos. Não pare de experimentar, pois ao combinar pratos com diferentes vinhos terá dois mundos de surpresas. Não se esqueça de ter atenção às temperaturas de serviço, aos copos e, claro à boa companhia."

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Casal Figueira Vindima Tardia 2007 Last Edition

Um vinho feito pelo enólogo e produtor António Carvalho (RIP) em A-dos-Cunhados, Torres Vedras, num terroir mais que improvável (seria?) para plantar castas Gaulesas. Este colheita tardia, feito com Petit Manseng e apresentado numa garrafa de 50 cl, tem apenas 11º de álcool.
Last Edition, porque foi a última vindima em Casal Figueira.
O vinho aparece com notas de fruta bem madura, alguma compota e mel. E mel continua, na boca, mas com acidez para amparar tanta doçura. Termina longo e entusiástico. Nota pessoal: 16,5. (PVP: 13€). Excelente para animar uma boa conversa...

domingo, 15 de Novembro de 2009

Notas de Cozinha, de Leonardo da Vinci



Leonardo da Vinci (1452-1519) é uma das figuras mais multifacetadas da história. Considerado desde o séc. XVI como uma espécie da “mago”, foi pintor, escultor, arquitecto e mestre de banquetes nas cozinhas de Ludovico Sforza.

É assim que é apresentado o Autor deste livro, que li e que é mais uma contribuição para a Academia.

Em 1469, com 17 anos, Leonardo vai como aprendiz para Florença, para a oficina de Verrochio, onde fica durante 3 anos. Passado esse tempo e enquanto se procura impor como pintor, começa a trabalhar à noite como criado de mesa, na Taverna dos Três Caracóis. Na Primavera de 1473, todos os cozinheiros morrem misteriosamente por envenenamento e Leonardo é incumbido de supervisionar as cozinhas. Com o seu espírito inquieto, rapidamente transforma a sensaborona polenta com carnes, em pratos novos e requintados.
Em 1478, a Taverna dos Três Caracóis é destruída por um incêndio e Leonardo, com Sandro Boticelli, abre uma nova taverna nesse sítio, decorada com telas de Verrochio e denominada A Marca das Três Rãs de Sandro e Leonardo. O estabelecimento não foi propriamente um sucesso e em 1482, Leonardo parte para Milão, onde fica ao serviço de Sforza, como Conselheiro sobre Fortificações e Mestre das Folias e Banquetes. A princípio, Leonardo pouco mais faz do que “animar os pós-prandiais”, com o seu alaúde, mas aos poucos vai fazendo outras coisas, como o projecto de alteração das cozinhas do Palácio Sforza.
E Leonardo lista os requisitos básicos de uma cozinha:

“Primeiro que tudo [é preciso] um lume permanente. Depois, um fornecimento constante de água a ferver. A seguir, um chão que esteja sempre limpo. Então, vêm dispositivos para limpar, moer, talhar, pelar e cortar. Seguidamente, um dispositivo para manter a cozinha livre de cheiros e fedores, enobrecendo-a com uma atmosfera suave e sem fumo. E música, pois que os homens trabalham melhor e com mais alegria quando há música. Finalmente um dispositivo para eliminar as rãs dos barris de água potável".

Ao longo da sua vida, Leonardo vai desenvolvendo alguns utensílios para facilitar o trabalho na cozinha e discorrendo sobre a cozinha e a comida, no Codex Romanoff.

Deixo uma nota sobre etiqueta à mesa:

“O meu Senhor Ludovico tem o costume de atar coelhos adornados com fitas às cadeiras dos seus comensais, a fim de que estes possam limpar as mãos engorduradas às costas do animal, costume que eu considero impróprio na época em que vivemos. E quando, depois da refeição, os animais são recolhidos e trazidos para a lavandaria, o fedor infiltra-se nos outros panos que são lavados conjuntamente com eles. Também não me apraz o hábito de o meu Senhor limpar a faca às vestes do vizinho. Porque razão não lhe é possível fazer como os outros membros da corte que a limpam à toalha trazida para o efeito?”

Bétula Branco 2008 e Lulas "Suadas"

“Produzido na Quinta do Torgal, situada no coração da Freguesia de Barrô e na margem esquerda do Douro, o Bétula Branco é feito a partir das castas Viognier (50%) fermentado em barricas de carvalho Francês e Sauvignon (50%) fermentado em inox a baixa temperatura. A vinificação foi efectuada na 3ª semana de Setembro. De cor citrina, mostra um aroma exuberante e complexo a fruta tropical e vegetais. Na boca é pleno de bons sabores frutados e uma bela acidez”. (do contra-rótulo)



Acrescentando informação da ficha técnica, este vinho foi feito a partir de uvas de vinhas plantadas em 2006 com solo granítico muito pobre. As uvas foram apanhadas manualmente para caixas de 15 Kg, com triagem em tapete. Esmagamento e prensagem suave, com fermentação lenta e a baixa temperatura (14º C). Foi engarrafado (3000 garrafas) em Maio de 2009. O Enólogo é F. Montenegro e o PVP recomendado é de 12/14€.


Depois de apresentado o vinho (enviado pelo produtor para prova), destaque para a elegância do conjunto garrafa, cápsula e rótulo. Foi refrigerado, decantado e servido a 12º. Notas iniciais de vegetal, conferidas pelo Sauvignon Blanc, a abrir para fruta. O vinho é bem estruturado com o lote de Viognier a estabelecer uma bela relação com o Sauvignon. Muito bom corpo, boa acidez, dá muito prazer a beber. O álcool (13,5º) fica bem envolvido e a madeira aparece no ponto certo. Para o primeiro vinho feito das uvas de videiras tão novas, promete muito para próximas colheitas. Nota pessoal: 16,5.



Acompanhei com umas simples lulas (que deixei a marinar em limão, salteadas no wok, tendo depois acrescentado o líquido da marinada e salsa fresca e deixando-as a “suar” até estarem cozidas) e batatas cozidas.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Quinta do Mouro 1995 e Comida

O Quinta do Mouro é um daqueles vinhos Alentejanos que às vezes quase passa despercebido. Explico... Neste momento encontramos o 2004 à venda, a quase € 30. Não é um "topo" (em preço) nem é propriamente um vinho para a semana ou mesmo o mês (nem pensar no dia a dia). Nem me lembro de ter provado este vinho desde que o blog existe... Há algum tempo atrás (pouco mais de um ano) ficou uma garrafa do 2002 por abrir, num jantar onde se provaram alguns bons vinhos Alentejanos (aqui).
Mas os vinhos da Quinta do Mouro, de Miguel António de Ordoña Viegas Louro são dos mais respeitados em Extremoz e arredores. Na verdade, desde o Casa de Zagalos até ao Touriga Nacional ou Rótulo Dourado, tudo o que vem da Quinta é motivo de respeito vínico. Basta lembrar que um lote de Castelão da vindima de 2000, rejeitado por Miguel Louro, foi o mote para Dirk Van Niepoort "fazer" um vinho no Alentejo.

Este 1995 apareceu a um preço quase demasiado baixo... Em circunstâncias normais, custaria pelo menos € 20, mas estava a ser proposto na confeitaria Doce Fada a um preço absolutamente pornográfico: € 4,99. Claro que não podia escapar. Comprei apenas uma garrafa, para provar. Inicialmente pensei em fazer um prato de carne, qualquer coisa como porco estufado com castanhas, mas depois de ter aberto, decantado e provado o vinho, fiquei a pensar num bacalhau cozido com legumes...



E foi mesmo o que fiz... Quanto a este vinho que já leva 14 anos? Perdeu corpo e pujança. Ainda tem fruta, as notas da madeira estão deliciosas, mas termina curto. Para o bacalhau foi bela wine-pairing... Fiquei com vontade de ir buscar mais duas garrafas para ponderar o acompanhamento do bacalhau de Natal. Nota pessoal: 16