sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Bife da Vazia com Legumes | Vale da Raposa 2010




Já há algum tempo que não metia um bife por aqui. Este vem a propósito de um episódio do JA ao lume onde o chef explicou a forma mais correcta de se fazer um bife, nomeadamente em relação ao sal, referindo que se deve temperar logo antes de ir à frigideira, para que o sal não absorva os sucos da carne e a deixe seca por dentro. Confesso que muitas vezes tenho visto os bifes a serem temperados com antecedência, o que é meio caminho andado para dar asneira.

Bife da vazia, com um dedo de espessura (dá cerca de 150 g de carne). Fiz um corte na linha de gordura que rodeia o bife (como se pode ver na foto abaixo) para impedir que a gordura, mirrando, descompusesse o bife. Levei uma frigideira anti aderente a lume esperto, com um fundo de azeite. Meti o bife sem qualquer tempero  e deixei dourar num dos lados. Virei o bife e só aí é que o temperei com sal marinho e mistura de pimentas esmagadas no almofariz. Quando dourou do outro lado, temperei-o e voltei a virar o bife. Retirei logo a seguir e deixei a carne a repousar em cima de dois garfos. Entretanto, deitei um dente de alho esmagado na frigideira, rebolei-o um bocado e refresquei com um pouco de vinho branco. Fui envolvendo até o molho reduzir e servi o bife com um mix de vegetais cozidos (batata, couve flor e feijão verde) e com o molho. 



A carne ficou no ponto, rosada por dentro, mas sem perder a humidade.


Para acompanhar este prato escolhi um vinho que é, para mim, uma das melhores escolhas no patamar abaixo dos quatro euros. Vale da Raposa 2010, de Domingos Alves de Sousa, feito pelo Anselmo Mendes e pelo Tiago Alves de Sousa para os supermercados Pingo Doce. Feito com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinta Barroca, tem 14º de álcool (pede uma manga por perto) e tem um bom equilíbrio entre as notas de fruta e a madeira (usada) onde estagiou. Fresco e fácil de beber, não cansa e tem muito boa aptidão gastronómica. Ao preço, não se pode pedir mais :)

domingo, 10 de novembro de 2013

Frango no Púcaro de Barro Preto | Vinha Val' dos Alhos Castelão 2011

Começámos há três anos, eu, a Ana e o Luís, uma aventura que me deu muito gozo. Durante cento e cinquenta e sete semanas publicámos receitas sobre um tema previamente escolhido. Começámos com o leite creme, a mando da Ana e terminamos hoje, três anos depois com um tema sugerido pelo Luís: afectos.

Fui buscar referências a outros tempos, ao frango estufado ou assado que se comia muitas vezes ao almoço de domingo e à chanfana que se comia em dias de festa e embora esta não seja de todo uma novidade aqui no blog, pareceu-me apropriada para o tema, que até podia ter sido almoço de domingo
Arranjei um bom frango de capoeira como faço normalmente, reservando a carcaça para uma canja e aproveitando os peitos e as coxas para outras preparações. 

Cobri o fundo de um púcaro de barro preto com cebola às rodelas, alho esmagado e picado, pimento vermelho em fatias, mistura de pimentas, uma malagueta seca partida e uma folha de louro. Juntei o frango em pedaços, um pouco de chouriço de carne, reguei com azeite, temperei com sal e cobri com vinho tinto. Deixei a marinar de um dia para o outro e depois foi só levar ao forno pré aquecido a 170º C durante duas horas. Durante esse tempo fui virando a carne. Servi com um mix de legumes cozidos a acompanhar.

 

O vinho escolhido foi o Vinha Val' dos Alhos Castelão 2011. A única referencia que tinha deste vinho era esta. Esteve na feira de vinhos do Jumbo a cinco euros e é um vinho feito a partir de uma vinha centenária da Casa Agrícola Horácio Simões. É um belo Castelão de que só me apetece dizer que só não gosta quem não gostar mesmo de vinho tinto. Excelente RQP.


sábado, 9 de novembro de 2013

Caras de Bacalhau | Mux Branco 2011




Já há bastante tempo que não comia caras de bacalhau. Na verdade, quando as vejo nas prateleiras do supermercado, aparecem sempre com um ar muito pouco cativante. Estas tinham um aspecto fantástico e foram compradas no Mercado de Febres, juntamente com os sames e as línguas deste post.

Demolhei-as durante vinte e quatro horas, mudando a água umas três vezes. Descasquei batatas e cortei-as ao meio, arranjei couve tronchuda  portuguesa e levei a cozer durante quinze minutos. Juntei então meia cara de bacalhau e um ovo. Depois de levantar fervura, deixei outros quinze minutos e servi, depois de devidamente escorrido... Querendo-se, deita-se um dente de alho esmagado e picado no fundo do prato, antes de servir e finalizar com bom azeite.


Aproveitei para provar o novo azeite da Adega de Borba, que tinha comprado na loja online numa promoção. Duas garrafas de meio litro por seis euros com portes já incluídos. O azeite tem notas de maçã verde e frutos secos. Nada madurão, é uma boa escolha ao preço (agora está a € 3,99).


Para acompanhar, o Mux branco de 2011, de Mateus Nicolau de Almeida. Feito maioritariamente com Rabigato, é um vinho muito fresco e nada cansativo, que acompanhou muito bem este prato tão simples. Não é um "Os Xistos Altos", mas custa metade do preço (cerca de doze euros). Muito porreiro :) 


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Arroz de Camarão e Peito de Frango



Esta semana foi a minha vez de ditar o tema à Ana e ao Luís, na edição número 157 das nossas trilogias. O tema proposto foi uma variação sobre um prato do chef Henrique Sá Pessoa. Para além de ser um conceituado chef (bolas, como detesto esta palavra), conseguiu fazer um dos meus programas preferidos, no que concerne a temas de cozinha, o Ingrediente Secreto, pela simplicidade e assertividade dos pratos e dos conselhos, aliados à simpatia e facilidade de comunicar. O menos bom do programa era mesmo o vinho (havia sempre um) que nem sempre era (imho) tratado como devia, mas isso é um eno-chato a falar, pelo que não releva.



Fascinaram-me alguns pratos, sempre simples mas sempre assertivos e um de que me lembro era um arroz que combinava camarões com frango e foi este o prato que escolhi para esta variação/apropriação.

Ingredientes (para 4 pessoas)

2 peitos de frango
12 camarões grandinhos (20/30)
1 cebola
2 dentes de alho
1 malagueta seca
mistura de pimentas a gosto
polpa de tomate qb
vinho branco qb  
2 chávenas de chá de arroz carolino
1 raminho de salsa
sal a gosto

Começa-se por descongelar os camarões. Leva-se um tacho ao lume com água e sal e quando a água levantar fervura, juntam-se os camarões. Baixa-se o lume e quando os camarões "alaranjarem" (ao fim de 3, 4 minutos), retiram-se, deitam-se em cama de gelo para arrefecerem. Retira-se-lhes a tripa (que se rejeita) a cabeça e as cascas que se esmagam no almofariz e reservam-se. A papa da cabeça e cascas volta para a água onde cozeram e fica cerca de meia hora a apurar o caldo em lume brando.

Entretanto, corta-se o peito de frango em cubos. Pica-se a cebola e os alhos e levam-se a refogar num tacho com um fundinho de azeite. Tempera-se com uma malagueta seca partida à mão, a mistura de pimentas e junta-se o peito de frango. Vai-se envolvendo tudo até o frango perder a cor rosada, mas sem alourar. Adiciona-se polpa de tomate, deixa-se refogar mais uns 2 a 3 minutos e refresca-se com um pouco de vinho branco, o suficiente para estufar o frango. Deixa-se estufar o frango e quando este se apresentar macio, junta-se o arroz. Envolve-se e adiciona-se o caldo da cozedura do camarão devidamente coado (em volume, o triplo do do arroz; se necessário, juntar água). Deixa-se cozer durante 12 minutos, juntam-se os camarões e a salsa picada. Volta a envolver-se, deixa-se uns 2 a 3 minutos fora do lume a harmonizar sabores e serve-se.


domingo, 3 de novembro de 2013

Feijoada de Samos e Línguas de Bacalhau | Muxagat Os Xistos Altos Rabigato 2011

Sames (ou samos, como se diz na zona de Ílhavo) são as bexigas natatórias do bacalhau e podem ser consideradas a dobrada do mar, dada a sua proximidade de textura com as tripas de vaca. Os sames e as línguas do bacalhau terão sido quase sub-produtos da industria da pesca, aproveitados pelos homens da faina do bacalhau para comporem os seus próprios pratos a partir das partes menos nobres. Hoje encontram-se línguas de bacalhau em salmoura em quase toda a grande distribuição; já os sames, encontram-se com relativa facilidade em feiras e mercados na zona de Aveiro. 


São vendidos em salmoura, pelo que devem ficar a demolhar umas 16 a 24 horas, dependendo do tamanho. Depois, limpam-se os sames das peles mais escuras e cortam-se em tiras. Reservam-se.

Pica-se uma cebola e leva-se ao tacho com um fundo de azeite a estalar. Junta-se alho picado e esmagado, pimentas a gosto (gosto muito de utilizar pimentas preta, branca, verde, vermelha e rosa) grosseiramente esmagadas no almofariz, uma malagueta seca desfeita à mão e umas rodelas de chouriço. Deixa-se refogar e junta-se bom tomate em cubos (se for a época do tomate) ou a sua polpa (fora da época) e deixa.se mais uns minutos em lume esperto, mexendo sempre. Refresca-se com um pouco de vinho branco e deixa-se estufar em lume brando cerca de 10 a 15 minutos. Juntam-se então os sames e as línguas, igual quantidade de feijão branco cozido e caldo de cozer o feijão a cobrir. Deixa-se levantar fervura e baixa-se o lume para o mínimo. Deixa-se cerca de dez minutos, o tempo dos sames e línguas cozerem. Junta-se um raminho de salsa picada, envolve-se e serve-se com um arroz branco.



Gosto muito de acompanhar com um arroz feito assim: fundinho de azeite num tacho, um dente de alho esmagado, uma folha de louro, sal qb e arroz carolino. Frito ligeiramente o arroz e junto água a ferver (o dobro do volume do arroz). Deixo cozer durante 12 a 15 minutos e está. Enformo o arroz, rodeio com a feijoada e sirvo.


Este é um prato muito especial, pela fantástica textura dos sames, a fazer lembrar dobrada e o intenso sabor a mar das línguas, tudo equilibrado pela untuosidade do feijão branco. Uma delícia.


O vinho escolhido para acompanhar este prato foi o Muxagat Os Xistos Altos Rabigato 2011. É um vinho feito quase na fronteira do Douro Superior com a Beira Interior por Mateus Nicolau de Almeida. Impressiona porque nada no vinho impressiona muito. Nada exuberante nos aromas que começam com ligeira tosta e abrem para notas cítricas, muito fresco e com uma acidez mais que correcta e um bom final longo, aliados aos parcos 12º de álcool, podia ser apenas um vinho correcto e sem defeitos. O que o torna impressionante é ele estar ali apenas a cumprir a sua função de bem acompanhar a comida, sem se meter em bicos de pés a dizer "aqui estou eu, olhem bem para mim". E como cumpre a função? Brilhantemente. A fazer lembrar que o vinho é um complemento da refeição e não a estrela. Terá uma espécie de equilíbrio que faz lembrar o Barca Velha, desenhado pelo seu avô, mas aqui em branco. Não é barato (custa cerca de 25 euros) mas já se afirma como um dos grandes brancos portugueses. Notável! 

sábado, 2 de novembro de 2013

Casa de Mouraz Elfa 2010




Vinho tinto do Dão, de uma vinha velha com castas misturadas. Abri sem decantar, a deixar que fosse abrindo no copo. Aparece químico, com notas de tinta da china e à medida que vai abrindo começa a mostrar um lindo lado vegetal. Notas de frutos e florais (rosas) aparecem pontualmente, mas o registo é principalmente vegetal, campo, bosque, por aí. Na boca surpreende pela frescura e delicadeza. Tem estrutura e bons taninos, mas macios. Não é vinho de concursos nem para beber apressadamente. Precisa de tempo, bons copos e comida séria para brilhar. Pareceu-me que havia Baga na vinha e que o vinho, se passou por madeira, seria usada, já que não notei notas de tosta. É uma abordagem que remete para um Dão de outros tempos, diferente, mas cheio de carácter. Deu imenso prazer a acompanhar o rancho do post anterior, aquecido, que é como ele fica melhor, desde que não se deixe a massa cozer demais. E com mais um ou dois anos de garrafa é capaz de ficar ainda melhor. Não é um vinho para todos nem para todos os dias ou todos os pratos, mas merece ser provado por qualquer enófilo que se preze.

O vinho foi oferecido pelo Produtor, a quem agradeço, naturalmente.



quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Rancho Transmontano




Nesta trilogia número 156, com o Luís a dar o mote a mim e à Ana: Trás-os-Montes, fui revisitar uma transmontana preparação que se estende à Beira Alta e que é considerada sopa na CTP de Maria de Lurdes Modesto. O rancho transmontano é referido na pag. 49 e o à moda de Viseu na pag. 85.

São duas preparações diferentes, sendo a transmontana menos unânime, mas fantástica no que toca à simplicidade aliada à riqueza de sabores, com o colorau a pontuar os aromas e a hortelã a dar uma frescura inusitada a um prato que era servido assim, num jantar em noites de muito frio.



Ingredientes, para seis pessoas e transcrito da CTP

250 g de massa meada ou cortada (macarrão)
500 g de grão
1 kg de batatas
500 g de vitela de cozer
1 chouriço de carne
200 g de presunto
1,5 dl de azeite
1 cebola
colorau
malagueta
sal

Põe-se o grão de molho de véspera; Descascam-se as batatas e cortam-se duas ou três em cubos. As restantes cozem inteiras com os restantes ingredientes, excluindo a cebola e os temperos.
Entretanto, pica-se a cebola e aloura-se com o azeite.
Quando tudo estiver cozido, retiram-se as batatas inteiras, esmagam-se e voltam a introduzir-se na panela. Junta-se o refogado e tempera-se com o sal, o colorau e a malagueta. 
Retiram-se as carnes, cortam-se em pedaços e deitam-se outra vez na panela. Rectificam-se temperos e junta-se hortelã, ou querendo, junta-se a hortelã já no prato.



Atum no Forno



Um atum inteiro, com pouco mais de um quilo. Tabuleiro de barro vermelho com fundo coberto com cebola às rodelas finas, alho esmagado e picado, tomate em cubos e pimento em tiras finas. Rega-se com azeite e vinho branco e tempera-se com sal e pimenta. Vai a forno médio durante meia hora até a cebola ficar macia. Juntam-se então batatas pequenas descascadas e escalfadas durante um quarto de hora e volta a levar-se ao forno durante mais meia hora, até as batatas começarem a dourar. Hora de juntar o peixe, que ficou a tomar de sal e que levou uma mistura de aromáticas a gosto na goela e foi levemente barrado com uma mistura de pasta de pimentão e polpa de tomate. Fica entre vinte minutos a meia hora, dependendo do tamanho do peixe e da temperatura do forno. Deverá ficar cozido, como se diz para o peixe, logo que deixe de estar cru, para não secar. Uma delícia, com o lombo bem firme e a ventresca a lascar...

Vitela Chanfanada, Arroz de Lombardo e Passas

A vitela (escolhida das partes de estufar), ficou a marinar numa mistura de vinho branco e tinto, alhos esmagados, pimentas várias e uma folha de louro. Deitei cebolinhas cortadas em quartos num púcaro de barro preto, juntei pimento vermelho em tiras e sal. Acondicionei a carne e a marinada no púcaro e levei ao forno pré aquecido a 160º C durante duas horas, com o púcaro tapado com filme de alumínio. Ao fim desse tempo, destapei o púcaro e subi a temperatura do forno para os 170º C com a ventoinha ligada. Deixei a carne alourar e servi.


Com um arroz. Fundo de azeite num tacho, um dente de alho esmagado e picado, passas e couve lombarda finamente fatiada e arroz carolino. Fui envolvendo tudo em lume médio durante uns dois minutos, juntei água a ferver (o dobro do volume do arroz) e deixei cozer durante doze minutos. Envolvi e servi, enformado e com a vitela à volta. 


Arroz no ponto e vitela bem macia. Bela combinação.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Peitos de Frango em Moscatel, Caril e Tomate

Nesta trilogia número 155, foi a vez da Ana lançar o tema a mim e ao Luís: moscatel. O Luís ficou a pensar que eu iria falar dos belos moscatéis do Douro ou dos excelentes de Setúbal, mas preferi fazer uma preparação de fusão utilizando um  humilde moscatel, o da adega de Favaios a acolitar um peito de frango estufado, atomatado e acarilado. 



Comecei por cortar um peito de frango de capoeira em cubos. Deixei-o a marinar de um dia para o outro em alho e moscatel.
Piquei uma cebola para um tacho, adicionei azeite a cobrir o fundo, duas colheres de chá de caril em pó, sal qb e deixei a cebola ficar translucida. Juntei então os pedaços do peito do frango e fui envolvendo até a carne começar a alourar. Juntei polpa de tomate, deixei uns minutos em lume médio e juntei o líquido da marinada. Ficou a estufar em lume brando durante cerca de quarenta minutos.
Entretanto cozi batatas com pele, cortei-as em palitos grossos, descasquei-as e fritei-as em azeite. Escorri-as em papel de cozinha e salpiquei-as com flor de sal. Ficaram macias por dentro e crocantes por fora. Servi com uma salada de tomate.
A doçura do moscatel ligou bem com o tomate e com o caril e deixou-me cheio de vontade de repetir a preparação :)