quarta-feira, 9 de março de 2011

Venham Comer a Sopa | 18ª Trilogia

Água de Unto, Caldo de Pobres, Caldo de Cebola, Rancho, Papas Laberças, Caldo da Panela, Sopa Seca, Misturadas, Açorda, Gaspacho, Sargalheta, Sarapatel. Uma dúzia de sopas a que se não chamam sopas no nosso receituário tradicional. De norte a sul, estas preparações simples muitas vezes eram a refeição num país com poucos recursos. Borsch, Clam Chowder, Minestrone, Mockturtle, Muligatawny, Soljanka, Tarator ou Zuppa Pavese, são sopas requintadas e que fazem parte do receituário mundial. Mas todas têm uma coisa em comum, são sopas. Talvez a sopa seja a primeira preparação culinária depois de se ter feito o primeiro tacho.

Nesta 18ª Trilogia, propus à Ana e ao Luís que fossemos à sopa. De legumes, de carnes, de peixes, de mariscos, com pão, com ervas aromáticas, com fundos, com refogados, com o que se quiser. Uma panela e água são o ponto de partida (claro que em Almeirim, uma pedra é obrigatória) e depois é coctar, com o que se tiver ou o que se quiser.


A minha sopa não tem nenhuma preparação específica por base. Comecei por meter água num tacho e juntei um pouco de chouriço, bacon e entrecosto e deixei a cozer em lume brando. Noutro tacho pus abóbora moganga a cozer. Depois de cozida passei a varinha e fiz um creme.

Deitei um fundo de azeite na panela e cortei cebola às rodelas finas. Juntei uns dentes de alho picados e deixei a cebola em lume brando até ficar transparente. Depois juntei nabo em cubos, cenoura em palitos grossos e ervilhas. Deixei a envolver no azeite por uns minutos e depois juntei a água de cozer as carnes. Quando os vegetais estavam quase cozidos juntei o creme de abóbora e as carnes cortadas em pedaços. Juntei também um pouco de esparguete partido em pedaços. Deixei a ferver uns minutos, temperei com sal e pimenta e desliguei o lume. Deixei ainda uns minutos a harmonizar sabores e servi.

terça-feira, 8 de março de 2011

Galinha Guisada | Conceito 2007

Este guisado de galinha é, para mim, um dos melhores exemplos de confort food, seja lá o que isso quer dizer. Corta-se uma galinha em pedaços e aloura-se em azeite, numa frigideira. Tiram-se os pedaços e reservam-se. Verte-se a gordura num tacho, junta-se cebola picada grosseiramente, alho esmagado, umas rodelas de choriço e deixa-se refogar em lume médio. Quando a cebola começa a alourar junta-se tomate bem maduro sem pele nem graínhas (polpa de tomate, fora da época dele), sal, pimenta preta, um pouco de pimentão doce, malagueta (a gosto) e deixa-se uns minutos. Junta-se a galinha e um pouco de vinho branco e deixa-se a estufar em lume brando. Quando a galinha começa a ficar macia, juntam-se ervilhas e batatas descascadas e cortadas em quartos. Junta-se água a cobrir as batatas e deixa-se guisar em tacho tapado e lume brando. Querendo, aromatiza-se com salsa. Naturalmente as quantidades são a gosto, bem como os vegetais (cenoura, feijão verde ficam bem). Esta é uma receita sem canones...      


Com este prato, revisitei o Conceito 2007. O Conceito é o vinho de topo da Rita Marques, do Douro Superior, Foz Côa. 

Elaborado com uvas de vinhas velhas (50 anos) da Quinta do Cabido, propriedade familiar assim designada pela sua localização, num inóspito “cabido” formado pela ribeira da Teja, na freguesia de Numão. Trata-se de um invulgar maciço de xisto, que desvia o curso de água antes deste iniciar a descida em direcção ao rio Douro, perto do Vesúvio, 3 km adiante. A margem forma ali um perfeito anfiteatro natural, com exposição sul. (daqui

É feito com uma mistura de mais de quinze castas e estagiou 20 meses em barricas de carvalho francês, das quais metade eram novas. Tinha-o provado há cerca de um ano e meio e na altura (aqui) pareceu ainda algo marcado pela madeira. Passado este tempo, o vinho ganhou e muito. A madeira está lá, mas muito mais bem integrada num conjunto muito equilibrado. É um Douro seguro, muito bem feito, a merecer o tempo que se espera por ele. Ao preço a que é proposto (€ 25,00) é uma boa escolha. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

6 à Sexta after Essência @ Big Bife

O fim de semana da Essência do Vinho tem sido o mote para se fazerem uns jantares de amigos e provar alguns vinhos after essência. Na verdade, o sítio escolhido para o Evento não será o melhor, já que 20.000 pessoas num fim de semana e Palácio da Bolsa parecem ser realidades quasi incompatíveis (quase incompreensível, quando o edifício da Alfandega está mesmo ali ao lado). Assim, as idas à Essência acabam por se fazer na tarde de sexta feira e seguidas de jantar. Este ano, grupo de seis comensais, optámos pelo Big Bife. Sável e Cabidela bem feitos. Nos vinhos, dois espumantes e com as entradas, o Terras do Demo e um Quinta da Pedra Alta, ambos brancos e brutos, em muito bom nível. 


Para acompanhar o sável, bebeu-se um Torre de Tavares Encruzado 2008, muito bom, fora do registo da fruta, mais mineral, telúrico, denotando alguma (pouca) evolução e o Bétula 2009 que estava em muito bom nível, como já tinha referido aqui


Depois do sável, a cabidela de frango. Frango pica no chão, cabidela bem feita (é pena o arroz agulha, que tira metade da piada ao prato).


Para acompanhar, bebeu-se o Gouvyas Reserva de 1996. O primeiro Gouvyas, do João Roseira e Luís Soares Duarte, em muito boa forma para um vinho com quinze anos.  


Nos pós prandiais, uma flute de Vértice Millesime, um belo espumante do Celso Pereira e um Graham' s 30 anos que não tendo a complexidade do 40 anos, é excelente. 



domingo, 6 de março de 2011

Cachaço à Italiana com Perfume de Moscatel | Quinta da Covada Reserva 2008

O Cachaço à Italiana é daquelas peças de porco que, como refere o Luís no Outras Comidas, é um misto que, ao mesmo tempo, desossa a espinha e preserva o início das primeiras costelas, deixando-o com toda a riqueza da carne com osso e com a facilidade de seccionar e servir de um lombo. Só vantagens, portanto. Temperei a peça (com cerca de um quilo) com sal, pimenta preta e alho e juntei um pouco de moscatel velho (cheio de depósito, que já não serve para beber, mas excelente para cozinhar) e deixei umas horas a marinar. Depois liguei o forno a 130º C, meti a carne e o líquido da marinada num tabuleiro de barro e levei ao forno. Deixei ficar umas quatro horas e depois mais cerca de vinte minutos a 190º C para dourar. Servi com umas batatas assadas com pele que depois de levarem o respectivo murro, foram temperadas com alho e azeite. À parte, uma salada verde. 


A carne ficou excelente, saborosa e muito macia. A repetir...


O vinho escolhido para acompanhar este prato é um daqueles que passa a fazer parte da minha lista de vinhos obrigatórios. É um vinho quase novo (esta é apenas a segunda edição do vinho), de um jovem Enólogo, o João Lopes Pinto. É o Quinta da Covada Reserva 2008. O 2007 tinha-o provado (aqui) e tinha gostado muito. Este 2008 continua a ser feito com Touriga Nacional (20%) de uma Vinha de Tabuaço  e uma mistura de várias castas (Rufete, Tinta Amarela, Tinta Roriz e outras - 80%) de uma vinha velha de Armamar. Estagiou 14 meses em madeira. Foi recentemente notado com 17 valores pelo painel da RV, como dei nota aqui
É um vinho muito bem feito, talvez mais fácil do que o 2007, ainda a precisar de tempo em garrafa, mas ainda assim a dar uma bela prova. Ao preço, a rondar os € 15,00, é uma bela compra. 

quarta-feira, 2 de março de 2011

Slow Food | 17ª Trilogia

Mais uma quarta feira de trilogia com a Ana e o Luís, desta vez o tema é Slow Food.

Quando Marshall MacLuhan lançou a base conceptual do que hoje chamamos de Aldeia Global estava no essencial a reduzir o mundo inteiro à escala de uma aldeia, onde todos se conhecem e onde todos têm um papel importante na vida e no desenvolvimento dessa aldeia (talvez a mais conhecida e aquela onde melhor se percebem estas relações interpessoais de uma forma simplificada seja a aldeia de Astérix e Obélix). Na aldeia global e idealmente, cada indivíduo teria o seu papel, a sua personagem, tal como na aldeia do Astérix; mas (e aplicando uma feliz expressão de Orwell n’ O Triunfo dos Porcos, “todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros”) é fácil perceber que a globalização não é igual em toda a aldeia, embora exista.

Na questão que agora importa, a da comida, esta “globalização” (ou melhor dizendo, a crescente monopolização das estruturas produtivas, nomeadamente da indústria alimentar) levou a que em Portugal e em pouco mais de vinte anos (mormente com a adesão à CEE, agora UE e a construção da actual rede viária), toda a lógica de distribuição e consumo de alimentos se tenha alterado profundamente. Com efeito, passou-se rapidamente de uma lógica de produção local e regional (mais alargada no caso de Lisboa e em menor escala, do Porto) que dava resposta às necessidades elementares das populações (embora colmatada com a produção própria, do porco e da horta, em meio rural) para a lógica da grande distribuição, uniformizadora da oferta e implacável na procura, obedecendo apenas à regra do maior lucro, em detrimento da qualidade da oferta (e nivelando por baixo, naturalmente). Este modelo de distribuição centralizado requer novos espaços e muitas lojas âncora, como as cadeias de vestuário, os restaurantes e as salas de cinema. Rapidamente, os “pequenos” centros comerciais como o Amoreiras ou o Brasília (e os muitos de “bairro” que se foram fazendo) se tornaram obsoletos e foram-se construindo espaços cada vez maiores, culminando no Colombo, no Dolce Vita Tejo, no Norte Shopping ou no Mar.

Toda a alteração do quadro social e económico, a par da crescente mobilidade das populações e do desenvolvimento das comunicações (móveis e internet) permitiu a aceitação acrítica deste novo modelo de distribuição, como o atestaram as peregrinações de famílias inteiras em fato de treino com carrinhos de compras ou a passear aos domingos durante os anos 90 do século passado. A rede de hipermercados e respectivos espaços comerciais envolventes foram matando calma e paulatinamente o comércio “tradicional”, da mercearia de bairro ao supermercado da aldeia. Também a “terciarização” do país levou à quebra brusca da produção de muitos alimentos da terra e ao recurso generalizado às grandes superfícies para abastecer a despensa. A livre circulação de bens no mercado europeu (e naturalmente, a sua dimensão) ajudou a que muitos produtos produzidos do outro lado do mundo cheguem agora a preços impensáveis há 25 anos, com um quilo de abacaxi feito na Costa Rica a ser mais barato que um quilo de peras do Oeste ou um bife de vaca holandesa abatida na Alemanha a ser mais barato que um bife de vitela Mirandesa ou Barrosã. Outro factor ajuda ainda a explicar em parte aquilo que comemos: as lojas de descontos, como o Lidl ou o Minipreço, por mor de uma politica de publicidade aguerrida (mais até do que a dos hipermercados, talvez) oferecem uma vasta gama de produtos exóticos, como a bolacha Maria espanhola mais barata que o pão e alguns produtos pseudo-étnicos como os molhos orientais que fazem as delícias de todas as pessoas que os tomam como uma evolução no sentido do gosto e não como uma farsa. Tudo o que é novo é bom, basta ver como a Perca do Nilo, o Panga do Mekong ou o Salmão do Viveiro se vulgarizaram na cozinha, em detrimento dos peixes pescados na nossa costa (muito pelo preço mas também pela maior disponibilidade dos peixes de viveiro). Também a generalização dos produtos hiper-manipulados, como os hambúrgueres para aquecer no microondas, os lombinhos, panadinhos, delícias e demais trupe de preparados de peixe, os preparados de “confeitaria” (como os bolos, tortas, pães de leite, croissants e as madalenas, tão apreciadas pelos nossos vizinhos) ou mesmo as milhentas farinhas pré-doseadas para fazer pães de tudo e os inevitáveis caldos caldinhos e calduços, a par com as bebidas pré-formatadas, como a Coca-Cola, os outros refrigerantes e até os vinhos. Isto para não falar do Arroz de Pato, Bacalhau à Brás, sopinhas, pizzas e demais “refeições” pré-preparadas. A própria comunicação social deu cobertura a este nivelamento e a oferta de receitas banais é mais que muita nas revistas, para não falar das receitas da Dica da Semana (Lidl) ou dos folhetos do Pingo Doce ou ainda das receitas online da Vaqueiro, da Nacional, do Mar da Noruega, etc.

Mas este modelo já existia na Europa “civilizada” e em 1986 (pouco depois de abrir o primeiro continente em Portugal, o de Matosinhos), aparece o Arcigola, antecessor do Movimento Slow Food, constituído em 1989, que por oposição ao Fast Food iria preconizar o culto da boa comida e de algum modo, por oposição à Global Village, o respeito pela biodiversidade no mundo, em vez da crescente massificação a que assistimos. O movimento Slow Food advoga a cozinha do Terroir, o uso dos ingredientes da terra cultivados segundo boas práticas agrícolas, colhidos no seu correcto ponto de maturação e consumidos frescos. Naturalmente, os peixes deveriam provir de capturas sustentadas e a carne de animais de pasto.

Confesso-me adepto da cozinha do Terroir. Ir apanhar uma tangerina a uma tangerineira e ver que é diferente da outra colhida na tangerineira ao lado, apenas porque uma delas apanha mais sol é uma experiencia que infelizmente é cada vez mais rara, neste mundo onde a fruta é padronizada, classificada, calibrada, envernizada, etiquetada, refrigerada, transportada e vendida e no fim não sabe a nada. Nada se compara a um produto de produção e consumo sustentados. Não é à toa que o bacalhau cozido com todos continua a ser o prato especial do Natal. É que o equilíbrio daquela mistura de bacalhau a lascar, o bom azeite e acima de tudo, as pencas que levaram com geada em cima é algo de único e irrepetível, por exemplo, no Verão. E os exemplos podiam suceder-se em catadupa. O pão, por exemplo. Já não há bom pão, mas a proliferação das MFP e farinhas pré-preparadas fazem as pessoas acreditar que sim. E depois é ver pão e mais pão a ser apresentado como se se tivesse descoberto a pólvora, quando afinal é todo feito da mesma maneira, a farinha é igual, o fermento é igual. Como o vinho. A maior parte dos vinhos da distribuição são feitos para um gosto pré-formatado e produzidos em quantidades que permitam abastecer todas as superfícies. Mesmo na recente Feira de Vinhos Seleccionados de Portugal, feita pelo Pingo Doce e muito provavelmente a melhor de todas, a grande maioria dos vinhos era mais do mesmo, nada de muito novo.

Em Portugal o conceito de Slow Food será muito difícil de se generalizar, já que a oferta de produtos formatados é rainha (e já agora, o gosto, ou a falta dele, que os aceitou). Claro que há pequenos produtores que usam práticas biodinâmicas, mas fazem-se pagar muito bem por isso e quase não chegam ao mercado global, dominado por meia dúzia de grupos Económicos (é como a gasolina, não adianta andar a passar emails de protesto e dizer que se vai boicotar a Galp ou a BP, a gasolina vem toda do mesmo sítio e as diferenças de cêntimos entre as distribuidoras servem apenas para nos manter entretidos e arredados da verdadeira questão: estamos a pagar demasiado e ponto final). Aliás, é interessante constatar como há manobras básicas de marketing que nos arredam sistematicamente das questões essenciais. Os produtos de marca branca, por exemplo, versus os produtos de marca. Qual é a diferença ente o leite linha branca e o leite seleccionado da quinta A, B ou C? O de linha branca não vem da vaca? Vem, mas não vem da mesma vaca que dava o leite acabado de tirar e que era fervido e bebido. Ao leite, tudo se tira e tudo se dá. Tira-se-lhe a nata, dá-se-lhe suplementos, pasteuriza-se, embala-se e vende-se. Fazem-se mil subprodutos. E vendem-se. O iogurte líquido, de preferência em embalagens padronizadas de 180 ml para se reciclar (quando se recicla) muito plástico. A embalagem deve custar tanto como o produto, mas as embalagens são de 180 ml em toda a parte. O preço varia mais em função da atractividade do rótulo do que da qualidade do produto. Em síntese, cada vez mais o mercado oferece o que quer e nós limitamo-nos a comprar. That’ s it…

E para responder ao desafio lançado pelo Luís, decidi fazer uma experiência com comida fast food padronizada e outra com uma preparação a roçar o slow food e provei dois vinhos do mesmo Produtor, varietais, um de uma casta tradicional e outro de uma outra importada.

O prato fast food é uma coisa daquelas de cantina ou de restaurante onde se almoça a correr: croquetes de carne guarnecidos com arroz e salada. Croquetes pré-preparados do Minipreço, congelados. Apesar de terem sido fritos em óleo novo (coisa rara na maioria dos restaurantes) eram uma porcaria. A alface, igualmente má. Salvou-se o arroz, mas apenas porque usei arroz carolino... Vantagens? Fiz o jantar em vinte minutos. Desvantagens? Todas!


O vinho faz parte da linha de varietais da Adega Cooperativa de Pegões e foi feito com Syrah, uma das castas mais "globalizadas" do mundo vinícola. Na Península de Setubal, esta casta fez história quando o Syrah 2005 ganhou uma medalha de ouro num concurso internacional. Claro que passou a ser chamado o melhor vinho do mundo e a procura e os preços dispararam. O lado bom da coisa é que os bons vinhos da Casa Ermelinda de Freitas ficaram mais conhecidos do público. Este Syrah 2009 do Eng. Jaime Quendera é um vinho bem feito, ainda muito jovem, com boa fruta bem madura mas sem sobrematurações, com madeira qb, redondo e guloso, com notas de chocolate e um fim longo. Os 14,5º de álcool aconselham ligeira refrigeração. É polido e muito fácil de beber. Estes varietais estão a € 3,99 no Jumbo, pelo que é de aproveitar.


O prato slow food é um arremedo do Rancho à moda de Viseu. Não levou vitela de pasto nem galinha pica no chão, apenas pernil de porco e enchidos certificados (o que não quer dizer absolutamente nada). Também não levou batatas a engrossar o caldo. Foi um exercício apenas para poder dizer que lhe posso chamar slow food. E posso? Posso, afinal a base conceptual do prato respeita todos os fundamentos do slow food e ainda mais um: é daqueles pratos que, ao que parece surgiu dum aproveitamento e rapidamente se vulgarizou. E nestas comidas tradicionais de tacho não é pecado suprimir, acrescentar ou substituir ingredientes. Desde que não se chame atum ao cão. 

Para este prato escolhi o Trincadeira de 2007. Um belo exemplo de um Trincadeira estreme, com muito boa estrutura e menos guloso que outros que provei recentemente como o Vila Santa Trincadeira ou o Cortes de Cima Trincadeira. Não tem a facilidade de agradar do Syrah, antes pede algum tempo e já agora alguma atenção para mostrar o que vale. Por mim, gostei muito.  


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Os Vinhos de Topo do Douro, by RV (2010)

Depois de há mais de um ano ter reordenado por classificações e preços, os vinhos da prova de Vinhos do Douro, feita pelo Painel da Revista de Vinhos, venho agora mostrar os resultados da Prova publicada na RV de Dezembro de 2010. Foram 70 vinhos do Douro, de topo, maioritariamente de 2008, com preços entre os € 10,40 e os € 88,50 e com classificações entre os 15,5 e os 18,5. Como os ordenei por preços, destaquei os de melhor valor. 
No topo, com 18,5 aparecem o Quinta da Leda, que será uma das boas relações qualidade/preço do mercado, a par com o Quinta do Noval e o Quinta do Vale Meão de Francisco Olazabal, que foi o Enólogo do Ano para a mesma RV. Nada de estranho nestes três vinhos de topo.
A seguir, cinco vinhos classificados com 18 valores, onde estão o clássico Quinta do Vallado Reserva, também de Francisco Olazabal a par com o Vinha da Ponte, da Quinta do Crasto. Nos vinhos classificados com 17,5 valores, de destacar a entrada de rompante do Batom, ao lado de vinhos que são clássicos do Douro, como o Quinta de La Rosa, o Poeira, o Três Bagos Grande Escolha e o Quinta do Infantado Reserva (foi pena é o preço de referência ter passado de € 24,00 para mais de € 36,00).


No grupo de vinhos classificados com 17, muito boas surpresas e algumas a preços cordatos, como o Castello d' Alba Grande Reserva, o Kopke (provado no post anterior), o Mux, o Grandes Quintas Reserva (que vai na sua segunda edição, o 2007 era muito bom e este 2008 aparece a consolidar a boa imagem deste projecto de Bernardo Alegria, com enologia de Luís Soares Duarte), o Quinta da Covada Reserva, com enologia do João Lopes Pinto, também na segunda edição depois do belo 2007; o Quanta Terra, de Celso Pereira e o Quinta da Carolina de Luís Candido da Silva com enologia de Jean-Hugues Gros, todos abaixo dos € 20,00 são sem dúvida, boas compras e estão no mesmo patamar do Duas Quintas Reserva, Conceito, Quinta do Vale D. Maria, Quinta da Gaivosa, Pintas ou Batuta.

 
Abaixo do 17, de destacar o Quinta da Chinchorra, Dorna Velha e Quinta do Valle Longo, como boas compras.

Para finalizar, os vinhos que obtiveram as classificações mais baixas...

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

16ª Trilogia, a da Batata Doce...

Gitana, que tú serás
Como la falsa monea,
Que de mano en mano va,
Y ninguno se la quea.

Terminados que foram cinco ciclos desta Trilogia com a Ana e o Luís, foi a Ana a propôr o tema de arranque para o 6º ciclo e respectiva 16ª Trilogia deste nosso contentamento. E a Ana sugeriu Batata Doce, assim, sem mais... 

A batata doce não é um ingrediente muito comum na nossa cozinha. Tirando a presença em alguns pratos da Madeira, é quase uma ilustre desconhecida das nossas preparações, apesar da batata doce de Alzejur ser muito bem considerada. Claro que há muitas formas de a preparar e nem sempre como mera substituta da batata Inglesa. Acredito que qualquer chef de cozinha se sentiria como um peixe na água a criar receitas com batata doce, mas como não sou chef, acabei por me limitar a usar esta batata num prato banal, mas que a faria brilhar. É uma proposta muito pouco ousada e por isso meti no cimo um extrato dum poema de Ramon Perelló e S. Cantabrana que, musicado por  Juan Mostazo, deu uma bela canção da Concha Buika. La falsa moneda parece caír que nem ginjas na (falsa) batata doce. Não é um ingrediente que me tenha dado especial prazer usar na cozinha, não porque não goste, mas porque não há muitas hipóteses de criar uma preparação para a batata brilhar. Foi uma batata quente que a Ana atirou...

Na quase impossibilidade de criar algo de espantoso*, remeti-me à sempre relativa segurança de harmonizar batata doce com um big frango, daqueles de capoeira. Cortei o frango em pedaços e levei-o a alourar em banha de porco. Deixei que a gordura do frango aromatizasse a banha, reservei o frango e retirei os detritos que se formaram na fritura. Piquei uma cebola, deixei-a alourar, juntei alho esmagado e tomate e deixei refogar em lume esperto. Depois, juntei o frango, uma folha de louro, pimenta preta, um pouco de malagueta e vinho branco a cobrir o frango. Deixei em lume muito baixo cerca de uma hora e meia, até o frango estar macio. Juntei cenoura em rodelas, a batata doce devidamente descascada e cortada em pedaços e ervilhas. Mantive o lume em low-profile até os legumes estufarem e ficarem macios. Servi assim, sem mais.


Para acompanhar este estufado/guisado, escolhi um vinho que já andava para provar há algum tempo, o Kopke Reserva 2008. "Cacau, tosta, fruta preta, muita tensão, complexidade. Poderoso na boca, perfil austero e muito sério, conjunto com garra, saboroso, longo". Esta foi a apreciação do painel da RV. Foi notado com 17 pontos e um selo de boa compra. E tem cacau, tem fruta, apesar do estágio de 14 meses em pipas de 525 litros, a madeira não incomoda nada. É sem dúvida, um vinho a provar. Nesta "Feira" de queijos, enchidos e vinhos" do Jumbo, está a € 9,49. É de aproveitar. Belo vinho. 


* Citando Woddy Allen, aquele que ama a sabedoria é um virtuoso, mas aquele que tem relações com uma ave é espantoso.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Tibornada com Batatas a Murro e Quinta das Bágeiras Garrafeira Branco 2007 na Prova à Quinta

Como tinha referido no post anterior do Bacalhau à Lagareiro, é normal a confusão entre essa preparação minhota e a Tibornada da Beira Litoral, que aparece usualmente referida em livros, revistas, blogues, sites e quejandos, como Bacalhau à Lagareiro. A Tibornada é o nome dado "à ceia que se come nos lagares aquando do fabrico do azeite e na qual este prato é obrigatório" (in Modesto, Maria de Lourdes - Cozinha Tradicional Portuguesa, pag. 144) e é feita assim:

Tem-se um bom lombo de bacalhau demolhado que se assa na brasa e se faz em lascas grandes. Escolhem-se batatas pequenas que se lavam e se dispõem num tabuleiro. Salpicam-se de sal e vão a assar no forno. Quando estão assadas, retiram-se, dá-se um murro a cada uma e colocam-se num tacho onde previamente se meteu o bacalhau, azeite, alho e pimenta. Tapa-se o tacho e deixa-se em lume muito brando (das brasas) durante um quarto de hora, agitando de vez em quando. Serve-se... 

Naturalmente há muitas variações a este prato e este que apresento até foi terminado no forno. E até se juntaram no tabuleiro, uns grelos previamente escaldados.


Este prato foi o mote para voltar a provar um dos meus vinhos brancos de referência e simultaneamente, contribuir para a proposta que o João Pedro Carvalho do Copo de 3, lançou à blogosfera vínica, a de provar um vinho Português com um perfil clássico na Prova à Quinta.




O vinho escolhido é branco e da Bairrada, é feito com Bical e Maria Gomes, fermenta em madeira e o seu Produtor é o Mário Sérgio Alves Nuno, um indefectível dos vinhos da Bairrada à moda antiga (o que será isto de modas e ainda por cima antigas?). A já quase dez anos do lançamento do seu primeiro Quinta das Bágeiras Garrafeira Branco (da colheita de 2001) este vinho, que só conheceu sete edições até ao presente (2001, 2002, 2004, 2005, 2006, 2007 e 2008) é, indubitavelmente um dos melhores brancos portugueses.
E na edição de 2007 deu um dos melhores garrafeiras brancos da quinta.
A concentração dada pelas vinhas velhas, o estágio em madeira usada, a fuga à frutinha fácil, a capacidade de evolução em cave, a mineralidade, o equilibrio geral, a aptidão gastronómica e acima de tudo, a expressão do terroir tornam este vinho em algo quase único, mas que ainda faz lembrar (embora de uma forma elevada e sublime) os velhos vinhos brancos da Bairrada que o meu avô fazia...


E em véspera de Trilogia, cumpriu-se o post 800 aqui no Garficopo.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Bacalhau à Lagareiro | Julian Reynolds Branco 2007

Na sequência da última trilogia, a do bacalhau, dei por mim a pensar na proposta da Ana. Na verdade, estas trilogias, com a Ana e o Luís constituem, para mim, belos momentos de criatividade e de afirmação do sentido do gosto. Dos nossos gostos e da forma como gostamos de cozinhar, passe o pleonasmo. Como contraponto à minha singela sopa de bacalhau, a Ana resgatou o Bacalhau à Lagareiro, citado na CTP de MLM e o Luís fez o Bacalhau à Conde da Guarda, do Mestre João Ribeiro. Do belo bacalhau com natas aka à Conde da Guarda apenas retive a urgente necessidade de completar a receita e ter a coragem de a ensaiar em breve e do à lagareiro, acabei por o fazer.

Não será uma receita canónica da nossa tradição (digo eu sem saber), já que é pouco vulgar a utilização do pão ralado no nosso receituário tradicional, mas aquela "capa" de ovo e pão ralado sobre o bacalhau demolhado em leite, deixaram o bacalhau com uma textura e sabor únicos. Por mim, fiquei fã...

Começa por se demolhar o bacalhau. Depois, corta-se o lombo em pedaços mais ou menos quadrados e deixa-se a marinar em leite temperado com alho, pimenta e sumo de limão durante umas duas horas. Depois passa-se por ovo batido e por pão ralado. Pré-aquece-se o forno a 200º C e deita-se um fundo de azeite num tabuleiro de barro. Junta-se um pouco do leite onde o bacalhau marinou, o bacalhau e uma noz de manteiga por cima dos pedaços do bacalhau. Leva-se ao forno e vai-se regando com o molho. Quando estiver loiro (ao fim de 15 a 20 minutos) retira-se e serve-se.    




Optei por cometer o sacrilégio de servir o bacalhau com batatas fritas (pré-fritas, de pacote) e nem me arrependi. E como já referi, fiquei fã desta preparação de Entre Douro e Minho e cujo nome a tanta confusão se presta, sendo usualmente chamado de lagareiro o bacalhau grelhado na brasa que depois é lascado, temperado com azeite e alho e acompanhado de batatas a murro.


O vinho escolhido para acompanhar este prato foi o Julian Reynolds branco de 2007. Um branco do Alentejo, feito de Arinto a que o clima confere algum peso, mas nada de preocupante. Boa acidez e alguma frescura, mesmo ao fim do tempo que leva de garrafa, está em boa forma. Gostei do vinho e do sentido gastronómico que mostrou a acompanhar este prato.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Perna de Porco com Ameixas | Conde de Vimioso Reserva 2003

No universo dos assados, há um que acho particularmente interessante, porque torna uma coisa tão simples e barata como um naco de porco numa preparação de médio/alto gabarito culinário. Uma coisa tão simples como a junção de umas ameixas à carne do porco. Este assado simples foi feito para acompanhar a jóia da coroa de João Portugal Ramos no (Riba)Tejo, o seu Conde de Vimioso Reserva, um vinho que, creio, nunca tinha provado. E fiz assim: Deixei umas ameixas secas (low cost, mas podem ser de Elvas) a marinar em vodka durante umas horas. Fiz uns furos na carne com a ajuda de uma faca e enfiei as ameixas lá dentro. Barrei a carne com uma pasta feita com banha de porco, pimenta, alhos e sal, juntei a vodka onde as ameixas marinaram e levei ao forno pré aquecido a 150º C, num tabuleiro de barro. Fui virando e regando a carne com o molho que se ía formando e um quarto de hora antes de servir, aumentei a temperatura para os 190º C para a carne dourar. Fatiei a carne e acompanhei com batatas cozidas e uma salada de alface temperada com azeite e flor de sal. 


Este Conde de Vimioso Reserva, aqui o 2003 é o topo de gama dos vinhos produzidos pela Falua de João Portugal Ramos. Foi feito com Aragonês, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Trincadeira e teve um estágio de 12 meses em madeira. Para o tempo que leva de garrafa está muito bem, carregado na cor, limpo e elegante, com os taninos já amaciados. Apesar do ano de 2003 ter sido bastante quente, este vinho está a evoluir muito bem. Para o preço (a rondar os € 15,00) é uma bela escolha.