sábado, 1 de janeiro de 2011

Fontanário de Pegões 2008 a entrar em 2011

Tenho para mim que ser enófilo implica percorrer um longo caminho, aprender muito e acima de tudo gostar de vinho. Não do vinho escort [que tanto pode ser o do garrafão ou da BIB que sempre acompanhou obrigatoriamente a refeição, como pode ser um Barca Velha (diluido ou não em água e/ou gelo) ou ainda um qualquer rótulo sonante ou uma exquisite botlle que fique bem numa mesa de restaurante, ou ainda e simplificando, o vinho mais caro da Carta de um qualquer Restaurante Inimigo do vinho que até pode pedir mais de € 15,00 por uma garrafa de Monte Velho servido em Copo de Três (é só um exemplo, que o vinho bebe-se com prazer, ao preço, mas não em maus copos nem a € 15,00) bem quentinho (e parece que pedir para chambrear um vinho que já está a mais de 20º C é muito mais chique do que pedir um frappée para o beber a uns mais decentes 16/18º C)] mas de vinho, tout court, sem mais. Claro que no início da caminhada enofílica, a tentação é a de provar todos os vinhos que tenham levado prémios ou que tenham rótulos (muitas vezes) pour épater le bourgeois e apenas para se dizer: este já provei. Mas à medida que se vão coleccionando referências, rótulos, vinhos medalhados (e depois de muitos Euros gastos) entra-se num outro nível, onde o que mais interessa são as pechinchas, aqueles vinhos que conseguem ter um preço bomba e uma qualidade ao nível de outros que custam o dobro, o triplo, ou até mais. Claro que estes serão os vinhos naturais do enófilo que procura tirar o maior prazer dos vinhos que prova sem gastar fortunas. E há vinhos que conseguem brilhar e que não custam fortunas (podem até não ganhar concursos, mas à mesa muitas vezes proporcionam mais prazer do que os seus irmãos que vestem de ouro e lantejoulas e com preços a condizer). Esse será o nirvana do enófilo, descobrir um vinho que envergonha as vacas sagradas, embora o enófilo continue a andar atrás das ditas vacas.

Mas ser enófilo é estar algo fora da çena, é ser nerd, pricipalmente para os escorters que querem é alegremente despejar os seus copos e para os outros todos que quando compram um vinho o fazem, não pelo antecipado prazer da prova, mas pelo preço (e aqui andamos nos extremos, algo entre abaixo de 2 ou acima de 30 euros) ou região (e pelo rótulo). Os vinhos bem feitos e com preços decentes ficam assim arredados da esmagadora maioria dos consumidores. Os que nivelam por baixo (a maioria) lá vai conseguindo beber vinhos com menos defeitos do que os que bebiam há uns dez anos atrás (mas nem se devem aperceber) e os que nivelam por cima podem comprar os vinhos de topo (para chambrear ou juntar umas pedras de gelo) a preços mais em conta (excepto nos restaurantes, mas isso não importa nada e o que é caro é que se vende). Olhando para a forma como os vinhos rodam num qualquer super ou hipermercado, os vinhos de que os enófilos gostam são vendidos a conta gotas e isso leva a crer que a RV tem pouco impacto na educação do gosto e que os blogues de vinhos não terão nenhum (em Portugal, naturalmente). Nas garrafeiras, o panorama será algo diferente, mas a avaliar pela quantidade de garrafeiras a fechar, também é de crer que a penetração no mercado é residual (excluindo as ofertas de Natal, naturalmente, mas aí, nem quem oferece nem quem recebe saberá muito bem o que está dentro das garrafas). 

Assim, o enófilo como missionário, não funciona. Aliás, o grande mercado está dominado por meia dúzia de cadeias de distribuição que vendem os mesmos produtos a preços similares, o que irá condicionar a escolha e o gosto do consumidor. A função social do enófilo, ainda mais quando blogger, resume-se a deixar umas notas de prova e opiniões que servem muito mais como memória pessoal do que como referências de compra (tirando a centena de pessoas que se acreditarem numa nota de prova positiva, lá irão comprar uma garrafa para provar um vinho, mas seguramente essa mesma centena de pessoas já deve conhecer o vinho e ter comprado a sua caixa ou garrafa para provar, pelo que a mensagem acaba por ser estéril).  

Ainda assim e apesar de tudo, está na moda falar de e em vinho. Até a Proteste, do alto da sua pseudo sabedoria e isenção vai pegando numas garrafas de vinho que leva para o laboratório e o analisa. Também o dá a provar a dois grupos de paineleiros, uns amadores e outros "profissionais" e organiza uma lista (sem que se perceba a forma como os vinhos são hierarquizados - será pelo teor alcoólico, pelo rótulo?) que dá lugar a conclusões tão patetas como o Uvas Douradas do Lidl ser superior a um Diga? ou um Terras d' El Rei poder ser uma escolha acertada face a um Esporão Reserva ou um Pera Manca, como tinha referido aqui. Na edição de Dezembro de 2010 viraram-se para os Vinhos da Penísula de Setúbal (escolheram 45 vinhos) e o mais bem classificado foi um Vinha Val dos Alhos Castelão 2008 que custa € 4,95. Pelo nome não chegava lá, mas via Google lá percebi que é um vinho da Casa Agrícola Horácio Simões, que apenas conhecia como produtor de Fortificados de Moscatel. O vinho, esse continua a ser um perfeito desconhecido, já que não aparece em nenhum dos Guias onde o procurei (JPM, vinhos de Portugal 2011, incluído) e também nunca o vi à venda. Pouco surpreenderam os vinhos notados logo a seguir, com o DSF colecção privada Syrah 2004 e os Cabernet Sauvignon e Syrah 2008 da casa Ermelinda de Freitas a ocuparem os lugares seguintes. Surpreendente, foi o Fonte do Nico Castelão ter aparecido em 8º lugar, o Adega de Pegões em 13º e o JP em 14º, acima de vinhos como o Soberanas XS, o Domingos Damasceno de Carvalho, o Herdade de Portocarro, o Má Partilha, o Soberana ou o Trincadeira da Casa Ermelinda de Freitas. Mas mais surpreendente mesmo foi ver nos ultimos lugares, vinhos honestos, bem feitos e com uma boa relação qualidade preço, como o Adega de Pegões Colheita Seleccionada 2007 (provado recentemente aqui) em 43º e o Touriga Nacional da casa Ermelinda de Freitas 2008 (provado aqui) em 44º lugar. Já agora, como tinha gostado dos vinhos que os iluminados da Proteste classificaram pior, restava-me provar o vinho que ficou em ultimo lugar na classificação, o Fontanário de Pegões (o da lista era o 2007 e eu provei o 2008 e não acredito que haja uma variação grande de colheita para colheita em vinhos desta gama, pelo que as diferenças serão marginais) a ver se conseguia agradar mais do que o Fonte do Nico, o Serras de Azeitão ou o JP (que até são bons para cozinhar). E naturalmente agradou. Ao preço (€ 2,49), é um vinho de combate. Muito cordato, simples mas agradável, com os taninos domesticados, é um Castelão (com um pouco de Touriga Nacional) fresco e fácil de beber. Porque é que terá ficado em último? Não sei nem vou perder tempo a comparar o vinho com o Adega de Pegões que custa metade do preço e ficou em 13º lugar. Apesar do preço...         

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Oitava Trilogia às Quartas e a Bela da Broa e Galinha Acarilada | Herdade do Porto da Bouga Reserva 2008

Nestas oito semanas de trilogia com a Ana e o Luís, temos tido oportunidade de ensaiar preparações que apenas obedecem ao tema lançado pelo proponente e que (por mim falo) tem dado coisas que se calhar, não fosse este desafio semanal, nunca ou dificilmente apareceriam. O tema da semana - a broa - foi proposto pelo Luís. Com o fim de semana a coincidir com o Natal, não houve grande tempo para pensar muito e a minha abordagem a esta proposta/desafio acabou por ser quase em cima do joelho e quase sem rede, já que foi feita hoje ao jantar. Dentro das possiveis abordagens, ficaram logo uma série delas de fora, como fazer broa ou fazer uma preparação em que a broa fosse muito processada. Acabou por ficar a vontade de harmonizar a broa com uma galinha (era uma inteira e gorda, com ovos e respectivos miúdos e que deu uma canja fabulástica e da qual reservei os supremos, bem como as coxas e as sobre-coxas). Deixei parte da galinha a marinar em vinho branco, alho e um pouco de azeite de um dia para o outro; depois deitei azeite no fundo de um tacho e levei a lume forte. Juntei os pedaços da galinha e deixei alourar. Juntei uma cebola picada e o liquido da marinada e deixei a estufar em lume muito brando. Quando a galinha estava macia, juntei um ar de pimenta, sal marinho e aquela mágica mistura de especiarias que quando acolita o frango quase obriga a um arroz branco a acompanhar - o caril. Aqui o acompanhamento foi muito menos neutro.
Resolvi fazer umas migas com boa broa de milho e couve galega. Outro tacho, mais azeite, um dente de alho esmagado e cortado, a broa partida em pedaços pequenos e couve galega cortada quase como se fora para caldo verde. Um pouco de água para hidratar a couve e vai de mexer em lume médio, até harmonizar sabores (não queria uma papa). Já agora e para que a broa tivesse dois momentos no prato e para eu, se quisesse, chamar ao prato, galinha de caril com broa em dois momentos, resolvi servir um supremo da galinha sobre uma fatia da mesma broa, aqui com um pouco do molho de caril. Servi assim, sem mais e ainda estou a pensar que algumas harmonizações pouco canónicas, dão pratos interessantes, como este...        


E já que estava numa de quebrar "regras" (sejam lá essas senhoras quem forem) resolvi esquecer um vinho branco que seguramente ligaria/mariadaria bem aqui, com o supremo seco da galinha e com o caril e atirei-me de cabeça a um vinho tinto low-cost do nosso Além-Tejo que estranhamente, apesar de ser muito pouco falado, é muito bom, barato e fácil de encontrar. Feito na Herdade do Porto da Bouga, em Alegrete, com Trincadeira, Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah, estagia oito meses em carvalho Francês e Americano. Um vinho tinto do Enólogo António Saramago que surpreende sempre pela frescura e pela boa acidez. Cheio de fruta, com a madeira no ponto certo, é um vinho feito para o Pingo Doce e que agora baixou o preço (custa € 3,99), o que o torna numa das propostas mais interessantes nesta gama de preços. Obrigatório...   


domingo, 26 de dezembro de 2010

O Cabrito do Natal y Sus Muchachos Bairradinos

Este ano, no almoço do dia 25/12 aka dia de Natal em Terras da Gandara (near Bairrada), havia cabrito no forno... Feito pelo meu pai, deixado de véspera a marinar em alho e um pouco de vinho branco e já depois no assador de barro, acolitado com batatas e mais uns aromas/temperos. Para acompanhar este cabrito (que nem é assim uma coisa obrigatória no 25/12 por terras da Gandara, ou nem era, como o leitão também não o era), porque não ensaiar uma mariadagem com vinhos tintos de respeito com alguma idade, feitos da Baga da Bairrada (que até pode ter sido do Dão ou que volta ao Dão, a 25/12 isso não releva) e com selo de Qualidade de dois grandes produtores? Nada contra, tirando que a experiência de abrir vinhos com alguma idade (13 e 16 anos, estes, não deveriam ser considerados vinhos velhos, embora outros com menos anos já tenham fenecido) e provenientes deste rectângulo nem sempre dão uma prova inesquecível pela positiva. Foram escolhidos dois vinhos, um Garrafeira 1994 do Mário Sérgio Alves Nuno, da Quinta das Bágeiras e que esteve quase para acompanhar a bacaulhauzada do dia 24, não fosse ter aparecido com aromas estranhos e a pedir descanso depois de cuidadosamente vertido num decanter e deixado a repousar e um vinho de vinha, da Pan(asqueira) e de 1997 feito pelo Eng. Luís Pato e que foi aberto uma hora antes do almoço e também filtrado e enfiado cuidadosamente num decanter. Curiosamente, são dois vinhos que conheço e que já tinha provado por algumas vezes. O Quinta das Bágeiras Garrafeira 1994 já não se deve encontrar no mercado, mas o Vinha Pan 1997 encontra-se com alguma facilidade. O preço neste caso é muito relativo, mas ambos teriam preços a rondar os € 25,00, quando foram lançados para o mercado...    
  


Apesar de ambos serem vinhos de guarda, feitos de Baga e muito bem feitos, não resistiram muito bem à passagem do tempo (claro que se pode sempre falar de condições da garrafa e das de guarda). O Bágeiras não chegou a acordar para a vida (ao contrário de uma outra garrafa que tinha provado recentemente, mas com melhores condições de guarda - na adega do Produtor) e o Vinha Pan esteve sempre semi-adormecido. Sendo que este último está no mercado (e em promoção, em alguns sítios), será para beber asinha.

Já o cabrito e apesar de ter gostado de ter ficado um pouco menos tempo no forno, preferiria um Bágeiras Garrafeira Tinto de 2001, 2004 ou 2005 (todos fantásticos e provei o 2004 a 15 dias do Natal) ou um Vinha Barrosa de 2001 (que também adorei, ou um VB 2005 que ainda não provei, mas que será outro grande Baga)...      

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sétima Trilogia às Quartas, o Frango que saiu Pintada Recheada e o Quinta da Gaivosa 1995

Mais uma Trilogia das quartas feiras, com a Ana e o Luís. Desta vez, o tema - proposto pela Ana - era frango recheado. Por mim e para simplificar, optei por uma galinha de Angola, ou pintada, já que não tinha nenhum frango de capoeira inteiro disponível. Comprei a pintada arranjada e congelada e deixei-a a descongelar. Limpei as penas espúrias, lavei-a bem por dentro e por fora e reservei-a. Para o recheio, um trio que se presta e muito bem a rechear aves em geral e esta pintada em particular: Cogumelos (pleurotus), castanhas e pasta de figado (de um bloco de foie a uma pasta de figado de porco, é tudo caminho... eu usei o fígado do porco). Levei um tacho ao lume com um fundo de azeite (e fica bem citar aqui o Chef Henrique Sá Pessoa que no programa do Domingo passado na 2 - Ingrediente Secreto - sobre courgettes, disse que a maior parte dos seus pratos começam com um fio de azeite...) e juntei uma cebola picada e dois dentes de alho esmagados. Deixei confitar a cebola e juntei algumas castanhas (daquelas que se compram descascadas e congeladas). Envolvi tudo e deixei a estufar em lume brando, depois de juntar um pouco de vinho do Porto*. Ao fim de cerca de meia hora, juntei uns pleurotus partidos em pedaços pequenos e desliguei o lume. Deixei o recheio a arrefecer e juntei umas colheres de pasta de fígado de porco. Temperei com pimenta preta e um pouco de malagueta moída. Juntei um pouco de sal, mexi tudo e enfiei o recheio pelas entranhas da pintada...

Entretanto, liguei o forno com o termostato nos 190º C e entretive-me a coser as aberturas da galinha, com calma e paciência... Apesar da calma e da paciência (e já agora, de algum cuidado) o molho do recheio acabou por sair parcialmente. Nada que incomodasse muito. Reguei a pintada com mais um pouco de vinho do Porto e meti-a no forno, coberta com uma folha de alumínio. Ficou assim pouco mais de uma hora.


Depois, baixei a temperatura para os 170º C e deixei ficar mais uma meia hora, 45 minutos enquanto ia regando a ave com o molho que se ia formando no fundo do tabuleiro. Quando estava lourinha, retirei-a do forno (que entretanto desliguei) e pensei num acompanhamento - algo que iria ligar muito bem seriam umas "papas" de farinha de milho cozida, com uns fios de couve galega a dar o toque ácido - mas que preteri por achar que se calhar, dado o recheio, não precisava de mais nada.

E foi assim que a pintada acabou no prato, acompanhada do seu recheio, com castanhas, pleurotus e pasta de fígado de porco.


Para acompanhar este prato escolhi um vinho de um dos grandes produtores do Douro, Domingos Alves de Sousa, com a sábia enologia de Anselmo Mendes e do Tiago Alves de Sousa. A escolha nem foi muito difícil porque há pouco tempo tinha tido uma meia desilusão com um dos seus vinhos de topo, o Vinha de Lordelo 2003 que estava mais evoluído do que seria de esperar e queria ver melhor da bondade dos vinhos da Gaivosa com alguns anos. E este Quinta da Gaivosa de 1995, ao fim de 15 anos, mostrou-se um grande vinho. A rolha ainda deu algum desassossego, porque já parecia no limite da validade, quando cortei a capsula. Mas tirei a rolha intacta e verti cuidadosamente o vinho para o decanter (tinha deixado a garrafa de pé durante dois dias, para o depósito assentar). Deixei-o respirar um pouco e provei. No inicío estava assustado e com alguns aromas menos agradáveis, mas isso passou depressa. Evoluido? Sim, mas com uma classe que deve estar fora do alcance da maioria dos vinhos portugueses. Macio, todo ele veludo e com uma cor ruby viva e apaixonante. Grande vinho a acompanhar uma pintada que estava muito agradável...    


* Acerca de vinhos na comida, penso que é tonto usar vinhos com defeitos ou maus, já que se corre o risco de dar cabo da comida, sendo igualmente tonto usar vinhos que darão maior prazer a ser bebidos/provados. Ressalva-se naturalmente, as sobras das garrafas. Aqui, como não tinha sobras, usei um vinho do Porto honesto e que até dá algum prazer a beber, o Armilar Tawny de 10 anos, produzido pela C. da Silva - Vinhos Dalva - e comercializado pelos supermercados LIDL. Custa pouco mais que um tawny corriqueiro, logo não é muito grande o desperdício, já que o preço rondará os € 7,00.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Uma Espécie de Açorda de Bacalhau | Contemporal

Digo espécie, porque esta açorda não foi feita simplesmente com o pão aromatizado no caldo de cozer o peixe a desfazer-se no azeite aromatizado com alho. Na verdade, nesta variante, levei um tacho ao lume com um fundo de azeite e alho esmagado e juntei uma cebola em rodelas finas. Deixei que a cebola ficasse translúcida e adicionei um pouco de pimento vermelho em tiras finas e um tomate em pedaços pequenos. Deixei tudo em lume brando enquanto limpei uma posta de bacalhau de peles e espinhas e embebi umas carcaças já secas em água a ferver. Juntei o pão, um ar de pimenta preta e um pouco de pimentão doce e fui mexendo pacientemente, até a açorda estar homogénea. Depois juntei o bacalhau lascado e um pouco de salsa e envolvi tudo. Desliguei o lume, esperei uns minutos, voltei a envolver a açorda e servi, com umas azeitonas pretas.  


O vinho que acompanhou este prato foi o Contemporal, nova marca do Modelo/Continente, aqui na versão Vinho Verde Branco. Escolhido por Aníbal Coutinho e produzido pela Sociedade de Vinhos Borges, é um vinho simples, fresco e com boa acidez. Ao preço (€ 1,99) é uma boa escolha.  

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

A Antecipação da Consoada e os Vinhos | Herdade do Perdigão Reserva 2007

O bacalhau cozido com mais ou menos todos é bem capaz de ser o prato mais consumido no jantar do 24/12, ou o da Consoada. Por mim, gosto muito do bacalhau cozido apenas com batatas e duas couves, a galega em folha e outra mais clara em repolho (lombarda, coração and so on and so on). Claro que os bróculos, a couve flor, a cenoura, os ovos e a cebola normalmente entram para compôr o resto do todo que antecede toda a panóplia de doces como as filhozes, as rabanadas e o bolo-rei e que acaba em roupa velha como entrada no almoço do dia 25. Para bem fazer este prato, diria que os legumes deverão ser deitados no tacho onde há água a ferver por estrita ordem do tempo de cozedura e que o bacalhau deverá ser apenas escalfado e que o ovo deverá ser cozido à parte e mergulhado no tacho com a água ainda fria. Depois, já no prato, um dente de alho esmagado e cortado, um generoso fio de bom azeite, o bacalhau e os legumes e pimenta preta a salpicar o prato...    
    

Para acompanhar este prato, não há unanimidade nas opiniões. Desde um vinho branco às segundas, quartas e sextas, tinto às terças, quintas e sábados e ao domingo, ou se manda a moeda ao ar ou se prescinde do bacalhau, como advoga o meu amigo PadreFrancisco, vale tudo. Por mim, concordo, embora prefira um branco (um bacalhau bem preparado e acompanhado por um Quinta das Bágeiras Garrafeira branco é algo de inesquecível) e de preferência um branco com algum tempo em garrafa. Este Herdade do Perdigão Reserva, feito em 2007 com Antão Vaz e estagiado em madeira constituiu uma bela mariadagem. Para "reserva" está algo evoluído na cor (a roçar o dourado) mas está telúrico e mineral, elegante e com bom corpo para acompanhar a comida. A cereja no topo do bolo, foi o preço... € 5,99 no Jumbo do Parque Nascente. Imperdível.  

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sexta Trilogia às Quartas e a 15/12/2010 sai Arroz de Entrecosto em Vinha de Alhos com Grelos | Quinta das Baceladas 2004

Desta vez, para a trilogia das quartas-feiras com a Ana e o Luís, fui eu que sugeri o mote: Arroz ou o arroz do nosso contentamento, seja lá isso o que fôr... Tendo perfeita noção que ambos iriam apresentar belas interpretações desse prato (de arroz) que dá para tudo, desde os mais delicados mariscos às carnes mais violentas, com sangue e tudo, optei por uma preparação sem receita pré-definida e sem forno, embora a tentação de fornear alguns arrozes seja sempre grande...

Escolhi uma carne quase unânime, entrecosto de porco, como base da minha preparação. Comprei um pedaço de entrecosto quase sem gordura e pedi para mo cortarem em pedaços pequenos, com carne à volta dos ossos, sem esquírolas e pouco mais. Deixei em vinha de alhos de um dia para o outro (com o vinho escolhido a ser o nóvel Contemporal branco da região dos vinhos verdes, feito pela Borges, escolhido por Aníbal Coutinho e que integra a nova marca de vinhos da Sonae). 

Comecei por picar grosseiramente uma cebola e uns dentes de alho. Deitei-os num tacho, cobri com azeite e levei a lume esperto até a cebola estar translúcida. Juntei os pedaços de entrecosto previamente escorridos do líquido da marinada e fui mexendo, sempre em lume esperto, até o entrecosto estar alourado. Juntei o líquido da marinada, um ramo pequeno de salsa, uma folha de louro, pimenta preta e malagueta em pó, uma colher de massa de pimentão e um ar de pimentão doce. Juntei ainda água suficiente para no fim do processo de estufagem da carne, sobrar líquido para o arroz cozer e ficar amalandrado. Deixei a estufar em lume brando (cerca de uma hora) e quando a carne estava macia, juntei arroz carolino, o melhor para estes arrozes. Quando começou a levantar fervura, juntei grelos partidos grosseiramente e envolvi-os na mistura. Depois foi deixar cerca de dez minutos a fervilhar e desligar o lume. Deixei assim, a harmonizar sabores durante mais cerca de três minutos e servi...   


O vinho escolhido para acompanhar este belo arroz foi o Quinta das Baceladas 2004. É um vinho Bairradino das Caves Aliança, feito por Pascal Chatonnet e Francisco Antunes, com uvas de Cabernet Sauvignon, Merlot e Baga de vinhas da zona de Cantanhede. Estagiou um ano em barricas novas de carvalho francês e foram feitas 37.901 garrafas mais 596 magnuns. O PVP ronda os € 10,00 e tem uns robustos 14,5º de álcool. Nesta edição de 2004 saiu muito equilibrado, com as três castas a jogarem em equipa e com a madeira a marcar o vinho sem grandes excessos. Ao fim dos quase cinco anos que leva de garrafa está muito agradável e pronto para aguentar mais uns anos em garrafa. Mais um clássico da Bairrada com uma relação qualidade/preço invejável...  

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Castello d' Alba Touriga Nacional Douro 2009 Unoaked | Borrego no Forno


Castello d' Alba é uma das marcas da VDS (vinhos do Douro Superior), juntamente com a Atalaya, Quinta da Cassa e Quinta de Fafide. Os brancos Castello d' Alba Reserva e Vinhas Velhas, provados recentemente aqui, pautam-se por uma relação qualidade preço invejável. Este tinto de Touriga Nacional da colheita de 2009 sem passagem por madeira era um vinho que estava já há algum tempo à espera para ser provado.

Foi desta, a acompanhar um naco dianteiro de borrego no forno...

O vinho é francamente bom e tem um preço muito interessante, a rondar os € 5,00. Nada de novo a assinalar, já que os vinhos brancos também partilham essa boa relação qualidade/preço. Com uma bela cor ruby medianamente carregada, muito límpido e limpo, cheio de fruta madura qb sem sobre-extracção, com uns taninos amigos do palato e um final médio, é um vinho imperdível. Alguma rusticidade a lembrar que estamos perante um vinho do Douro e com o lado floral da Touriga bem controlado/domado, muitos serão os encómios a tecer a este vinho. Fiquei fã... 
    


O borrego que acompanhou o vinho não terá grande história. Foi para o tabuleiro de barro, levou sal, alho esmagado, pimenta e vinho branco. A gordura (pouca) para a assadura foi azeite e os acólitos, batatas. Batata de polpa amarela e batata doce. Foi ao forno pré-aquecido a 170º C durante pouco mais de uma hora.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sopa de Favas, Castanhas e Espargos


Há comidas que pela sua simplicidade e por serem algo inusitadas merecem ser partilhadas, como esta sopa que estava para ser apenas de espargos e castanhas, mas a que a aposição de umas favas deu uma característica muito fora do esperado. Claro que a surpresa foi muito agradável...

Para começar, a base. Confesso que não gosto muito de sopas feitas apenas com azeite. Um pouco de gordura animal a "temperar" o caldo confere-lhe um sabor muito mais interessante. E aqui, usei apenas um pouco de chouriço com pouca gordura que levei a cozer. Quando estava cozido e tinha libertado um pouco de gordura e sabor para a água, juntei favas (fora de época, que se escalfam e congelam) e castanhas (também congeladas) e deixei cozer tudo. Pouco antes das favas e castanhas estarem cozidas deitei umas hastes de espargos cortadas em rodelas finas. Reservei o chouriço e algumas castanhas e passei a varinha até obter um creme. Juntei o chouriço em rodelas e as castanhas que tinha reservado, partidas em pedaços pequenos; juntei uns bagos de arroz carolino e levei ao lume até o arroz estar cozido al dente. Desliguei o lume, juntei as cabeças dos espargos, deitei um ar de pimenta preta, um pouco de sal e um fio de azeite. Aromatizei com um pouco de salsa fresca picada grosseiramente. Esperei alguns minutos e servi.       

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Quinta da Carolina 2008 | Entrecosto de Porco no Forno


A Quinta da Carolina situa-se na margem esquerda do Rio Douro a cerca de quatro quilómetros a sul do Pinhão. Este vinho foi feito com uvas das vinhas da quinta, com cerca de trinta anos de idade e orientadas (as vinhas, não todas as uvas) a norte. Esta é a informação mínima para se enquadrar este vinho. Depois, pode dizer-se que o Enólogo é Jean-Hugues Gros, que as castas estão misturadas e que tem Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Barroca e Tinta Carvalha. Uvas seleccionadas cacho a cacho, pisa a pé, fermentação em inox e estágio em carvalho Francês. Tinha provado a colheita de 2006 (aqui) e gostei muito do vinho. O vinho de 2008, acabado de saír para o mercado (leia-se Garrafeira Tio Pepe e pouco mais, que a produção é pequena - do 2006 apenas se fizeram 1.840 garrafas) e já notado com uns robustos 17 valores pelo JPM, no seu guia de vinhos era, naturalmente, um vinho que gostaria de provar. Quando estive na prova de vinhos da Madeira, na Garrafeira Tio Pepe, o Luís Candido teve a amabilidade de me oferecer uma garrafa para provar... 

O vinho não é muito carregado na cor; no nariz aparecem as notas da barrica, é algo floral e denota os aromas a fruta vermelha madura, mas sem ser compotada. Fino e elegante, diferente do 2006, que era mais concentrado, é um vinho consensual. Final longo e saboroso. Um belo vinho do Douro, que acompanhou muito bem um entrecosto de porco no forno com as suas batatas e espargos apenas salteados em azeite, sal e um ar de pimenta preta.